Mulheres, entendê-las quem há de?!

Publicação: COAD/ADV informativo 3/2003, pag. 569 – Setembro/03

É uma arte entender os meandros da personalidade e a intrincada sensibilidade das mulheres no dia-a-dia da advocacia de família, o que já me consumiu 43 anos de experiência no campo do Direito e do comportamento, seara do meu xará, o Freud, tão complexa e sutil é a textura da alma e da ótica feminina.

No meu escritório, ao telefone é proibido perguntar quem quer falar comigo, que não estou fugindo de credores nem com mania de grandeza (a atendente só não transfere os telefonemas que interrompam consultas: para os consulentes, quase sempre, fragilizados pelo que vivenciaram, uma interrupção abrupta de suas exposições passionais causa o efeito de um choque elétrico, além de, naturalmente, irritá-los). Também deixo para a secretária o controle da agenda: é ela quem coaduna a marcação das consultas (que duram uma hora), com as audiências no Forum ou as sustentações orais no Tribunal de Justiça. De fato nunca sei quem adentrará a minha sala de atendimento, o que vale algumas surpresas e essa última situação é que provoca uma parte deste artigo.

Neste ponto exagerarei na nos detalhes da mulher vítima, para me fazer compreender melhor: a secretária introduz determinada consulente e, eis que me assusto com a visão da figura trágica, senhora bem vestida mas parecendo atropelada, braço na tipóia, lenço cobrindo a cabeça, óculos negros escondendo os olhos, mancando escorada na amiga prestimosa. Após os cumprimentos de praxe desfia o rosário dos seus sofrimentos e amarguras conjugais, concluindo: “Por fim, doutor, ontem, quando descobri um bilhete da amante no seu bolso ele se enfureceu e, sob palavrões, passou a puxar meus cabelos, a me dar murros: – e, retirando os óculos – veja como está roxo o meu olho! E, soltando o braço da tipóia, choraminga ao mostrá-lo escalavrado: “está assim porque ele batia enquanto me esfregava na parede áspera!” Levantando-se da cadeira, sunga a lateral da saia para aparecer a coxa cheia de equimoses; em seguida, sob muitos ais! suspende a blusa e mostra o abdome e o plexo solar arroxeados. Àquela altura, se o canalha daquele marido entrasse na sala eu – já tomado de uma santa ira pela absurda covardia e pelo meu  ódio pessoal à violência doméstica que conta com a conivência das quatro paredes – avançaria nele como cachorro doido. Mas, porque cada caso é um caso, a experiência me aconselha aguardar a resultante da personalidade e do sentimento de cada consulente. Num caso, ela, de mulher se mostrará onça ferida, decidida a exigir seus direitos na Justiça, consciente da gravidade das ofensas e da ingratidão – malgrado a longa convivência que a envelheceu em vão no parir e criar os filhos, e na solidariedade e dedicação ao marido que, agora, – depois de humilhá-la com aquela sova a trocava por mulher jovem. Noutro caso, a resultante nem mais me surpreende: no que aquela sofrida senhora dá um stop nas suas lamúrias, suspira fundo e exclama: “O pior, doutor, é que não consigo deixar de gostar dele”. Esse tipo de mulher, respeitável no seu amor doentio, depois de extravasar o que necessitava contar, envergonhada de si própria, agradece a atenção depois de se recusar à queixa policial e de se confessar despreparada emocionalmente para assumir uma separação judicial, e se retira do escritório acompanhada da amiga que, perplexa, não atina do por que aceitara acompanhá-la ao advogado….

Mas, essa mesma mulher que é assim capaz de perdoar ao companheiro uma surra de salmoura é a mesma criatura incapaz de perdoá-lo por uma frase mal dita que tenha atingido com crueza a sua sensibilidade. Aquela injúria, de que o companheiro nem se lembra de ter dito um dia, ela guarda no coração por anos a fio até que, determinada a uma separação, ela joga a frase na cara dele, como quem a vomita.

Falando em sensibilidade, o jornalista Paulo César de Oliveira, PCO – fincado no Dicionário Houaiss, de longe o melhor da língua portuguesa – já comentou em sua coluna no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, o sentido pejorativo dos verbetes varoa e virago, malgrado seu uso forense. No entanto, a maioria dos operadores do Direito, para agradar toda senhora que detesta se ver designada como mulher em contratos ou em peças processuais, praticam o erro grosseiro de “exaltá-las” com aqueles verbetes, talvez porque alguma reclamou: “ora, se o meu marido tem o privilégio de ser tratado por varão (resquício bíblico), porque tenho de aturar a humilhação de ser chamada de mulher, como se eu fosse uma qualquer?! Então, gosta que se regala de ser tratada por varoa ou por virago (credo…). Só que desconhece, tal qual aqueles operadores do Direito (apesar da sua obrigação de bem manejar o verbo, seu instrumento de trabalho e saber que, nos códigos o feminino de homem e de marido é o belo verbete mulher! Nesse sentido, Houaiss ensina que varoa é um anacronismo antigo, significando mulher forte; mulher vigorosa que tem aparência masculina e age com modos de homem; machona, virago. E virago é ainda “mais pior”: mulher de aspecto, inclinações sexuais e hábitos masculinos; fanchona, paraíba… Aliás, falando no maltrato da mulher e do vernáculo no jargão forense, há os que a identificam como “a cônjuge”, apesar desse ser substantivo masculino o que obrigaria seu emprego como “o cônjuge feminino” em contraponto ao “o cônjuge masculino”.

Ainda sobre mulheres, lembro recente episódio em que aprendi um costume de outra civilização, enquanto aguardava a sessão de julgamentos no Tribunal e lamentava com o dr. Jacob Máximo, a mais recente deslealdade de um conhecido advogado que os demais, receosos de falsidade, ou os juizes de alguma malícia processual – tratam “com um pé atrás”. Parou, para um dedo de prosa conosco, um querido desembargador com quem continuei o assunto. E, porque o tal advogado é muito jeitoso na fala e nos gestos – comecei a contar o lance identificando-o como o “Sabe que o Fulano, que nem tem coragem de assumir ser gay…”, aí o desembargador me interrompeu _“Ora, Segismundo, conheço bem a vida dele. Ele é mais que gay; ele é o que os polinésios chamam Maru, nascituro que os pais desejavam mulher, mas, como nasceu homem, criam-no como mulher: a comunidade aceita-o com seus momentos de homem alternados com outros de mulher! Esse Fulano teve parceiros fixos e a família dele, tradicional, ao saber disso obrigou-o a se casar, para evitar escândalo!” Foi assim que aprendi a existência de Maru, a mulher eventual…