A assustadora história da medicina (III)

Jornal Hoje em Dia  – 10/11/02

Esta série transmite excertos do livro de igual título, do médico Richard Gordon (Ediouro), que merece ser adquirido pelos leitores. Este artigo e centenas de outros poderão ser acessados no meu site. Finalizei o anterior encerrando a parte dos procedimentos médicos na história antiga, e neste faremos um vôo sobre os da Renascença e séculos seguintes. Começo por Leonardo da Vinci (1452-1519) que, segundo o autor, como anatomista foi casual; a rainha conserva em Windsor seu encantador desenho de um casal cortado ao meio, fazendo sexo. Estão de pé, e o desenho apresenta em corte longitudinal o pênis firmemente inserido na vagina, com nervos vigorosos transmitindo o prazer para a medula espinhal do homem, seu coração bombeando o sêmen para fora do escroto por um longo tubo espinhal e o útero dela ligado ao mamilo. Tudo uma concepção. razoável do evento.

Em Paris, o estudante de medicina Andreas Vesalius (1514-64) encontrou, fora dos muros de Louvain, um patíbulo onde balançava um esqueleto dissecado completo com ligamentos. Ele correu para casa com aquela preciosidade e iniciou sua carreira que culminou num anfiteatro anatômico lotado, em Pádua (Ticiano pintou o quadro). Ele destronou bravamente Galeno, depois de descobrir que a mandíbula era um único osso, não dois, que o esterno é formado por três ossos, não sete, e que os filhos de Adão não têm uma costela a menos, e portanto Eva deve ter vindo de algum outro lugar. Tudo isso provocou a ira dos que, desde o começo do mundo, se julgavam importantes. Michael Servetus (1509-53) foi queimado vivo por Calvino, numa fogueira alimentada por seus livros, por ter descoberto a circulação pulmonar. Vesalius foi obrigado a abandonar a anatomia quando tinha 30 anos, e foi ser médico da corte em Madri. Ali ele dissecou um nobre espanhol, que se moveu alarmantemente sob o bisturi, o que provocou a ira da Inquisição, que o condenou a uma peregrinação expiatória a Jerusalém, na qual o navio naufragou e ele morreu de fome na ilha grega de Zante. Depois de Vesalius, vieram Eustáquio (1510-74) e Falópio (1523-62), famosos por suas trompas, a primeira no ouvido médio, a outra na pélvis feminina.

Saltando para o séc. XI, nele Salerno foi o primeiro centro de excelência médica, suplantada no séc. XIII por Montpellier e, depois, por Leyden, perto de Haia e cuja estrela era Hermann Boerhaave (1668-1738), que lecionava elegantemente em latim, e atraiu estudantes até da América, estendeu sua clínica particular até a China e morreu podre de rico. Montpellier chegou a abrigar o arrogante Paracelso (1668-1738), que começava suas aulas queimando obras de Galeno e desdenhava dos médicos tradicionalistas, com seus mantos de veludo e que falavam latim. “Eu não agrado a ninguém, exceto aos doentes que curo”, gabava-se ele, com razão. Montpellier produziu o único papa médico, João XXI, que morreu quando o teto lhe caiu em cima.

Sessenta e cinco anos depois de Vesalius se tornar seu professor de anatomia e cirurgia, Pádua ensinou o inglês William Harvey (1578-1657), que voltou para casa para trabalhar no Hospital São Bartolomeu, para James I e Charles I. Todo mundo sabia que o sangue se movia, fosse pela observação da artéria de uma ovelha abatida, fosse pela tendência do homem para matar e ferir seus semelhantes (Harvey sempre usava uma adaga no cinto). Até o século XVII, imaginava-se que o sangue saía e entrava, como as marés. Em 1628, Harvey demonstrou que ele percorria um caminho circular. Havia uma dúvida: como o sangue voltava ao coração através da carne? Para Galeno ele passava de um lado para o outro do coração: Vesalius, sarcástico, observou “Somos levados a admirar o maravilhoso artesanato do Todo-Poderoso que faz o sangue se escoar do ventrículo direito para o esquerdo por passagens invisíveis ao olho humano”. Esse mistério tantalizou os estudantes de Harvey durante 32 anos: o microscópio só foi inventado depois, acidentalmente por um óptico holandês que introduziu duas lentes num tubo. Antony van Leeuwnhoek (1632-1723),  explorou a invenção – ele tinha 247 microscópios e foi o primeiro homem a ver o próprio espermatozóide. Afinal, o microscópio, de Marcello Malpighi (1628-94), de Bolonha, revelou o elo que Harvey procurava, mostrando o corpo todo percorrido por capilares minúsculos que canalizavam as artérias para as veias. A partir de então, o corpo foi alegremente examinado ao microscópio e estudado pela anatomia por toda a Europa: nosso corpo é o mesmo velho corpo do homem primitivo, sujeito às mesmas velhas doenças. Nossos crânios são ainda os mesmos nos quais os antigos bem-intencionados, com uma lógica dolorosa, faziam buracos para aliviar dores de cabeça ou libertar os demônios da loucura. As múmias antes sofreram de apendicite, artrite e dentes estragados e depois se sujeitaram à inserção de um gancho no nariz para retirar o cérebro e a terem abertos seus flancos para serem regadas como um frango no forno, com especiarias e sal durante 70 dias.

Os corpos eram a terra comum na qual a medicina pastava e engordava. O material era filantropicamente fornecido por criminosos que se assustavam mais com a dissecação sangrenta que com a ameaça da forca. Em Edimburgo, quando o estoque ficava baixo para o cintilante professor Robert Knox (1791-1862), seus fornecedores Burke e Hare sempre podiam desenterrar alguém para ajudar. O problema desses dois era a preguiça. Para não ter de acompanhar enterros, evitar cautelosamente os parentes do morto e cavar no escuro, eles embriagavam corpos vivos, estrangulavam e os vendiam por 7 a 10 libras. Em 1875, a disputa por cadáveres criou problema em Montreal, quando o tifo dizimou os ocupantes de uma escola/convento, as freiras e crianças foram roubadas antes que os pais americanos chegassem para levar os corpos para casa.

Os anatomistas pontuaram seus nomes em corpos dissecados, com o mesmo amor com que os namorados gravam os seus nas árvores. Sobrevivem as criptas de Lieberktihn, no envoltório dos intestinos. O círculo de Willis, uma junção das artérias na base do crânio. A ampola de Vater, que guarda a extremidade do duto biliar .O forame de Wilson, uma abertura no peritônio, abaixo do fígado. A fossa de Rolando, no cérebro, e a bainha de Schwann, nos nervos. O saco de Douglas, atrás do útero, o canal de Alcock, na pélvis. O nervo de Bell, no peito, o músculo de Santorini, na face, o ligamento de Poupart, na virilha, o triângulo de Scarpa, na coxa… Quem encontra, modestamente dá seu nome à descoberta e faz de nós gloriosos Panteões ambulantes para os maiores médicos de cinco séculos. Ah! os médicos fizeram a vontade da igreja e procuraram a alma, porém nem Sir Thomas Brown, das universidades de Oxford, Montpellier, Pádua e Leyden, conseguiu encontrá-la. Mas, René Descartes (1596-1660)… a descobriu na glândula pineal, uma gotícula atrás do principal ventrículo do cérebro e de serventia desconhecida.