A assustadora história da medicina (II)

Jornal Hoje em Dia – 20/10/02

Porque os leitores a-do-ra-ram a série sobre problemáticos pacientes célebres (e que, junto com centenas de outras matérias, está acessível no meu site), inicio uma nova, seguindo o filão descoberto pelo mesmo médico inglês Richard Gordon, no seu livro sob esse título, da Ediouro, e que considero de leitura imperdível. Aqui transcreverei apenas excertos da história que ele detalha em 221 páginas muito bem humoradas e que começa ferina: ela não é o testamento de idealistas à procura da saúde e da vida, assim como a história do homem não é mais gloriosa do que uma lista de irracionalidade brutal e egoísta com lampejos espasmódicos de sanidade. A história da medicina é, em grande parte, a substituição da ignorância por mentiras. Esse vagar errante por becos sem saída pode ser uma progressão útil, quando os mais inteligentes e impacientes caminhantes encontram um caminho melhor.

A mais antiga história da medicina é extremamente tediosa. O egípcio Imhotep (c. 2980 a.C.) combinou a conveniência do médico com a arte de construtor de monumentos para o faraó Zoser, tendo construído a magnífica pirâmide Step de Sakkarah para o uso gracioso de seu paciente real, quando este ficou fora do alcance de qualquer tratamento. O imperador chinês. Fu-Hsi (c. 2900 a.C.) hoje seria um famoso praticante da medicina alternativa, fazendo suas acupunturas e dirigindo o fluxo corpóreo do Yang e do Yin. Essas são as forças opostas da vida e da morte, do macho e da fêmea, da força e da fraqueza, do sol e da lua. O Yang nada no coração cheio de sangue e nos pulmões, o Yin ressoa nas entranhas ocas e na bexiga. Aí o autor pega pesado: “que curiosa e persistente bobagem!”. O imperador Huang Ti (c. 2650 a.C.) descobriu a circulação (?!) do sangue 4.278 anos antes de William Harvey – se é que Huang realmente existiu, porque imperadores flutuam no ar rarefeito da história chinesa como dragões. No seu misto de história e lenda, talvez os chineses antigos vacinassem contra a varíola aspirando a pústula seca pelas narinas e talvez realmente alimentassem crianças retardadas, com deficiência da tireóide, com a tireóide tirada de carneiros. Talvez eles gostassem da cannabis, empregassem massagistas cegos e tomassem banhos frios, e talvez pudessem diagnosticar todas as doenças com um leve estudo do pulso. Tudo isso é muito remoto para nos entusiasmar e muito oculto para aprender. A única certeza que temos é de que os antigos chineses, como a massa da humanidade antes do século XIX, viviam e morriam apenas com a terapêutica da tradicional e fútil feitiçaria. Felizmente, aqueles homens tinham ópio para anestesiar a mente e uva para reconfortá-los…

Os gregos substituíram o Yang e o Yin por humores. O sangue, o muco, a bile amarela e a negra, a saúde dependia da harmonia disso tudo num dado momento. O médico mais importante era Galeno (c. 132-200 d.C.). “Ele era um homem autoritário, com resposta para tudo e, desse modo, estabeleceu o padrão de personalidade para nossa profissão”. Ele observou que as artérias continham sangue, não ar. Era especialista em ferimentos (cirurgião dos gladiadores) e previu os transplantes, notando que o coração continuava a bater quando retirado do corpo (nos sacrifícios). A ditadura de seu dogma reinou na medicina por 15 séculos. Em 1559, O Colégio Real de Medicina de Henrique VIII quase liquidou um homem de Oxford que ousou duvidar de sua infalibilidade. Galeno praticava entre os romanos, que consideravam a medicina profissional infra dignitatem. Seu Celsus (c. 50 d.C.) era um nobre e bem-dotado médico amador, lisonjeado na literatura com o título de Cicero medicorum. Sua elegante enciclopédia, De Medicina, foi agraciada com a distinção eterna de fazer parte dos primeiros livros impressos em 1478. Celsus dava aulas sobre operações de hérnia e de amígdalas (“devem ser descoladas em toda a volta, com os dedos, e arrancadas”), vislumbrou as sombras da insania e cardiacus, que pairavam ameaçadoras sobre a humanidade, antecipou Harvey (junto com o imperador Huang Ti) com sua intuição efêmera do sanguis cursus revocetur, e nos ensinou os sinais da inflamação – calot; rubot; tumor, dolor. Chega de latim. Charaka, Susruta, Alcameon, Empédocles, Pitágoras e Aristóteles são estrelas distantes, tremeluzindo no espaço exterior da história da medicina, mas que não precisam ser magnificadas.

Todo mundo conhece Hipócrates (460-370 a.C.). Isso por causa do seu Juramento que os médicos prestam na formatura mas poucos sabem de cor, ou lembram, a não ser a proibição de fazer sexo com as pacientes. Os Preceitos que adornam o Juramento advertem os praticantes da medicina contra cobrar demais, vestir-se com elegância excessiva e usar perfume, ao mesmo tempo aconselhando um corte de cabelo decente e unhas aparadas, encorajando a suposição de um modo agradável de tratar os pacientes (a expressão em inglês, bedside manner, nos foi legada pelo Punch, em 1884). Como Watt inventou o motor a vapor, Hipócrates inventou a medicina clínica. É um mecanismo simples, a aplicação prática da observação inteligente. O que importa é o homem doente, não as teorias do homem sobre a doença. E o paciente todo deve merecer atenção, bem como o ambiente que o cerca – medicina holística que foi moda há 21 séculos, de que Hipócrates foi pioneiro:

-Ele encostava o ouvido no peito para ouvir a fricção das membranas inflamadas, nos casos de pleurisia, que soavam como couro novo. Notou o nariz aguçado, os olhos fundos, as orelhas frias da face próxima da morte, a facies bippocratica, usada por Falstaff em Henrique V quando seu nariz ficou agudo como uma pena e com, o “balbucio de campos verdes”. Ele meditou sobre a respiração estranha de um homem agonizante, desde o caso de “Filisco, que vivia ao lado do muro e caiu de cama no primeiro dia de febre aguda… mais ou menos no meio do sexto dia, ele morreu. A respiração era o tempo todo como a de um homem tentando se refazer de um esforço, e espaçada e profunda” Descreveu, então, os famosos últimos suspiros…