A assustadora história da medicina (I)

Jornal Hoje em Dia  – 15/09/02

Nesta série – lembro que todos os meus artigos estão disponibilizados no meu site – ofereço aos leitores excertos do livro de igual título, do médico inglês Richard Gordon, da Ediouro, cuja leitura sugiro como ilustrativa e agradável na medida da fina ironia do autor. Encerei o primeiro artigo com a parte em que Gordon identificava Hipócrates como pioneiro da medicina holística, moda há 21 séculos e para quem o paciente todo deve merecer atenção, bem como o ambiente que o cerca, lembrando como foi descrita a morte de Filisco: …a respiração era o tempo todo como a de um homem tentando se refazer de um esforço, e espaçada e profunda”. Assim, descreveu, então, os famosos últimos suspiros…que ressurgiram em 1818 em Dublin, com John Cheyne (1777-1836) identificando um caso de apoplexia. “Durante vários dias sua respiração foi irregular, parava completamente por um quarto de minuto, então começava muito fraca, depois ” gradualmente ficava pesada e rápida e, aos poucos, parava outra vez. Essa revolução no estado da sua respiração durava mais ou menos um minuto.” Vinte e oito anos depois, William Stokes (1804-78) despertou novamente a atenção dos médicos de Dublin, e os nomes desses dois escoceses émigrés foram para sempre ligados ao termo respiração “Cheyne-Stoking” – uma deficiência no centro respiratório do cérebro – que fazia os médicos balançarem a cabeça, o anúncio certo do fim. 

Hipócrates descobriu que o alcatrão (um anti-séptico) detinha supuração dos ferimentos. Ele retirava o pus, alinhava fraturas e corrigia deslocamentos da coluna. Ele estabeleceu o principio: “Nossa natureza é o médico das nossas doenças”. O que significa que a maioria das pessoas melhora, de um modo ou de outro. Ele nos deu a palavra “aforismo”: criou 412, tais como: A vida é curta, a arte é longa. (Uma frase deprimente, gravada nas entradas das escolas de medicina.) A oportunidade é passageira, a experiência perigosa, o julgamento difícil. (O mesmo que a primeira.) Casos desesperados precisam de remédios desesperados. Os velhos suportam melhor o jejum, depois os de meia-idade, os jovens suportam mal e as crianças pior do que todos. (Daí a fortuna representada por livros com dietas para a meia-idade.) Não julgue as fezes por sua quantidade, mas por sua qualidade. (“Duas vezes em volta do recipiente e pontiaguda nas duas extremidades”, era o que um velho médico rural considerava erradamente o perfeito.) O sono que põe fim ao delírio é bom, sono fora de hora e sonolência indicam doença, bem como cansaço sem motivo. Os velhos ficam doentes com menor freqüência que os jovens, mas levam suas doenças para o túmulo. A morte súbita é mais comum no gordo do que no magro. Se uma mulher saudável pára de menstruar e sente enjôo, está grávida. (Nós todos sabemos essas coisas. Mas Hipócrates foi o primeiro a saber .) 

Hipócrates teria se admirado com a declaração de Platão de que ele era a Autoridade da Saúde na Área de Cos. O próprio Marco Aurélio teria hesitado em descer do Capitólio para dizer a Galeno que seu orçamento ia ser cortado. Eheu fugaces! No fim do século XX, a medicina proliferou tanto e seu custo cresceu tanto, que um tratamento adequado está muito além dos meios dos sofredores assustados e, no futuro, estará além dos meios de qualquer cidadão sofredor e pagador de impostos. A não ser que os médicos aprendam a praticar economia, além da medicina, Hipócrates se tornará redundante, porque ninguém mais poderá se dar ao luxo de ficar doente. 

Hipócrates brilha elegantemente na galeria de estátuas antigas dos homens de medicina, com sua barba crespa e testa franzida para os males da humanidade (pode ser vista no Museu Britânico) Freqüentemente ele está usando o cajado de Esculápio, o deus da cura, com a serpente enrolada. Na desordem e confusão do Olimpo, Esculápio era filho de Apoio (médico dos deuses) e de Coronis (ninfa). Ele era tão bom na sua profissão que enfureceu Plutão, por diminuir a população do Hades, e o rei dos infernos o explodiu com um relâmpago. Ele pode ser visto na Tate Gallery , no quadro de SirEdward Poynter, de 1880, que representa a clínica de Esculápio: um jardim murado com fontes cantantes e o arrulho das pombas, as pacientes, quatro mulheres voluptuosas, completamente nuas, bem providas de seios e de mons veneris, sendo o único sofredor um homem, que mostra ao médico o calcanhar dolorido do pé esquerdo. Homem de sorte, o velho Esculápio. 

Hipócrates escreveu 100 livros, embora fosse tão plausível a idéia de atribuir sua obra a várias pessoas quanto dizer isso de Shakespeare. 

A impopularidade da morte: timor mortis conturbat me – a idéia da morte me deixa morto de medo, exclamou William Dunbar (?1465-?1530). Esse temor compreensível criou a religião e a medicina. Para o autor, a antiga igreja católica era contra os médicos. Eles interferiam no negócio da morte. Os corpos aninhados em volta de suas torres de marfim enfatizavam o fato de que a recepção dos seus patronos seria tão calorosa no céu quanto o castigo dos outros, no inferno. A causa da doença era, evidentemente, o pecado, seu tratamento era a oração, o jejum e o arrependimento. Os santos dirigiam o corpo. Santa Blaise se encarregava da garganta, Santa Brígida dos olhos, e Erasmo das entranhas, Santo Dympna era o psiquiatra, São Lourenço especializava-se em dores nas costas, São Fiacre, em traseiros doloridos (ele deu o nome à pequena carruagem francesa). São Roque distribuía as pragas, São Vito tinha sua dança, O Fogo de Santo Antonio assava os membros, acesos pela infecção ou pelo envenenamento pelo ergot do pão de centeio. A primeira operação de transplante foi feita pelos santos gêmeos, Cosme e Damião, que substituíram a perna ulcerada de um homem branco pela de um negro morto recentemente (de Sedano representou isso no seu quadro). Os gêmeos foram decapitados em 303 d.C., acusados de serem empecilhos não-ortodoxos. 

Pior ainda, o corpo humano era considerado sagrado e a dissecação proibida (os muçulmanos continuam com essa crença). Desse modo, o conhecimento do corpo permaneceu à flor da pele. Galeno reclamava que um médico sem anatomia era um arquiteto sem um plano, mas ele também tinha de se contentar com a dissecação dos macacos da Berbéria, que enfeitam hoje Gibraltar. Trotula (c. 1050), uma das “damas obstetras de Salerno” (as outras eram Abella, Constanza e Rebeca), escreveu DeMulierum Passionibus, foi celebrizada de Navarra a Paris na canção “Dame Trot” pelo famoso trovador Ruteboeuf, mas mesmo assim tinha de dissecar porcos. Ela se consolava com o fato de os porcos serem iguais aos homens, por dentro. No outro lado do Mediterrâneo, na escola de medicina de Alexandria, fundada em 332 a.C., Herófilo e Erasístrato (c. 300 a.C.) já tinham a solução anatômica: eles dissecavam vivos os criminosos da prisão real. “Sem dúvida, o melhor método para aprender”, escreveu Celso, aprovando.