A assustadora história da medicina (V)

Jornal Hoje em dia – 24/11/02

Encerrei o artigo anterior relatando como o método anti-séptico de Lister, que consistia em matar os germes na sala de operação, foi substituído, no fim da sua vida, pela assepsia, sistema que usava autoclaves e água fervente para evitar que germes atuassem. Sempre transcrevendo excertos do livro, que recomendo, do dr. Richard Gordon, “A Assustadora História da Medicina”, prossigo lembrando que Lister, somente 15 anos depois de ter operado o anteriormente mencionado menino de Glasgow começou a praticar a cirurgia asséptica em lugar da anti-séptica.

Os aventais cirúrgicos fervidos e as luvas de borracha começaram a ser usadas em 1890, depois que o professor Halstead notou que sua cobiçada enfermeira-assistente, Miss Hampton, estava manchando as mãos sensíveis para fazer a assepsia dos instrumentos. A experiência foi tão bem-sucedida que o professor casou com ela no mesmo ano. Porém, Lister lutou contra a nova idéia, como o criador de cavalos lutou contra o automóvel, o coronel de cavalaria contra o tanque de guerra. Hoje a assepsia é tudo, todos os instrumentos são esterilizados remotamente por meio de raios gama e acondicionados em envoltórios de papel, como o band-aid; os cirurgiões usam uniformes, gorros, máscaras e luvas esterilizados que se tornaram, para um devotado público de televisão, vestimentas cerimoniais como os mantos e as casulas da Igreja.

Lister, Lord Lister, era bonito, robusto, gentil, impassível, resoluto e impermeável à crítica ou ao ridículo. Ignaz Philipp Semmelweiss (1818-65), da Hungria, era calvo, usava um bigodinho bem tratado, era excitável, sensível e louco. Quando Lister era ainda estudante, em 1846, Semmelweiss era assistente na Primeira Clínica Obstétrica de Allgemeines Krankenhaus, em Viena, o maior hospital do mundo para pacientes internos. A Primeira Clínica ensinava estudantes de medicina. A Segunda Clínica ensinava só parteiras. Na Primeira Clínica a febre puerperal, que aparecia uma semana depois do parto provocando hemorragia, trombose, peritonite, abscessos, septicemia e estupor, matava três vezes mais do que na Segunda Clínica. Toda Viena sabia tão bem, como conhecia o preço do Bratwurst, que as mulheres grávidas imploravam histericamente para dar à luz na Segunda Clínica. Semmelweiss notou que a febre puerperal imitava outra doença violenta que matava os médicos desafortunados que cortavam os dedos nas autópsias. Ele se lembrou de que cada mulher tinha um ferimento aberto, o útero, depois de livre da placenta. Ligou um fato ao outro ao perceber que os estudantes da Primeira Clínica vinham da aula de anatomia., onde dissecavam cadáveres, e as parteiras da Segunda chegavam das suas casas. Concluiu então, imediatamente: “A febre puerperal é causada pelo transporte para as mulheres grávidas de partículas putrefatas derivadas de organismos vivos, através dos dedos de quem as examina.” Ele fez os estudantes lavarem as mãos com um desinfetante, cloreto de cálcio. O índice de mortalidade na Primeira Clínica caiu de 18 para 1%. (Voltando a Pasteur, isso foi 17 anos antes de ele identificar as “partículas putrefatas” como micróbios e 19 anos antes de Koch relacionar os micróbios com as doenças! Como Jenner, Lister e Lind, Semmelweiss curou o que ele não sabia que estava curando. Os obstetras vienenses deram tão pouca atenção ao seu tiro no escuro quanto os cirurgiões de Londres deram ao de Lister.

Enquanto Lister acabou como um membro fundador da Ordem do Mérito, com um Instituto, um Memorial na Abadia de Westminster e uma estátua no lado de fora do prédio da BBC; Semmelweiss acabou num asilo para loucos em Budapeste, onde morreu em 15 dias depois de internado. Ele havia cortado o dedo na sua última operação e o ferimento infeccionou, e a gangrena invadiu seu corpo e o matou com um abscesso nos pulmões, exatamente como as vítimas da febre puerperal. E, porque a medicina não deu atenção àquele seu método imposto aos estudantes, durante setenta anos mais tarde, entre as mulheres que davam à luz, três contraíam a febre, e entre 100 com febre, três morriam. Afinal, se Semmelweiss conseguiu contê-la, foram as sulfas que a erradicaram.

Já a anestesia foi a brilhante idéia de dois cientistas espertos da Nova Inglaterra, dispostos a ganhar dinheiro: é uma história contada e recontada. Um deles, Horace Wells (1815-48), 29 anos, bonito, gorducho e de costeletas escuras, inventou uma solda sem sabor para firmar dentes falsos e que falhou apesar da garantia financeira dada ao seu paciente. Na manhã de 11 de dezembro de 1844, em Hartford, Connecticut, Horace – sentou-se na própria cadeira de dentista para que seu colega, o Dr. Riggs – que deu o nome à doença de Riggs que provoca a queda de todos os dentes – extraísse seu dente siso apodrecido. Eles decidiram tentar diminuir a previsível grande dor a ser provocada pela extração usando a novidade que acabavam de conhecer no Union Hall, onde Gardner Quincy Colton (1814-98), atendendo a um pedido especial, havia feito uma exibição privada do “óxido nitroso ou gás hilariante”, que, na noite anterior, havia alegrado uma palestra muito anunciada como sendo “sob todos os aspectos, um evento elegante”. Colton, por sua vez, era um estudante reprovado de medicina que vivia da ciência popular. O admirável desejo de aprender e a falta do que fazer em casa, à noite, que não fosse ouvir ou tocar piano, fazia com que esse tipo de palestra fosse muito popular, especialmente quando acompanhada por lampejos elétricos, explosões químicas e odores desagradáveis convincentes. Esse óxido nitroso foi criado em 1772 por Joseph Priestley (1733-1804), um ministro presbiteriano, constrangedor e ímpio, em Birmingham, e seu livro, História da Corrupção do Cristianismo,foi queimado pelo carrasco em Dort, em 1785. Filho de um comerciante de tecidos de Yorkshire, sem nenhuma educação científica, Priestley tornou-se o “Pai da química moderna… que jamais reconheceu sua filha” (porque apegou-se cegamente à teoria de que a matéria continha um misterioso flogiston, o material do fogo). Esse Priestley aceitou um convite para jantar, em julho de 1791, para comemorar a importância da queda da Bastilha para Birmingham, e um bando de desordeiros invadiu sua casa, destruiu seus papéis e seus aparelhos. Aborrecido, mudou-se para Londres, para ser o pregador matinal em Gravel Pit, Hackney, onde suas opiniões sobre a Bíblia não foram bem recebidas, e então emigrou para a Pensilvânia. Um ano antes de descobrir o óxido nitroso, Priestley havia extraído o oxigênio puro da atmosfera, que misteriosamente aumentava a claridade do fogo das velas e alongava o tempo de vida dos ratos. Ele inventou a água gasosa.