“A assustadora história da medicina” (IV)

Jornal Hoje em Dia – 17/11/02

Nesta série aproveito excertos do livro de igual título, do médico Richard Gordon (Ediouro), que merece ser adquirido pelos leitores. Este artigo e centenas de outros poderão ser acessados no meu site. Os anteriores foram ilustrados por vários procedimentos médicos na história antiga, depois fizemos um vôo sobre os da Renascença e séculos seguintes e hoje veremos o início da que surgiu como fase“pré-científica” da medicina, repetindo, com o autor, que a infeção era um assunto sem causas definitivas, como é o câncer hoje. Embora aquele inimigo fosse ainda desconhecido, a recomendação para matá-lo era terrível, o “hospitalismo”: a infeção, o envenenamento do sangue e a gangrena negra, esvaziavam as salas de cirurgia nos cemitérios e dava aos sucessivos ocupantes da mesa de operação uma chance pior do que a de um soldado em Waterloo. A equipe de cirurgia usava a mesma roupa com que chegava ao hospital, e só o cirurgião arregaçava os punhos. Alguns cirurgiões usavam sempre a mesma sobrecasaca para operar, aproveitando os botões para pendurar os fios de sutura afinal endurecidos com sangue e pus secos. Quanto mais sujas as sobrecasacas, maior era a clientela do cirurgião. A sala de operação tinha pias de cozinha com torneiras de bronze, bancadas de banheiro com tampo de mármore para os vidros e toalhas, bacias de louça com as esponjas cheias de sangue e um balde cheio de areia, que era espalhada com uma pá no assoalho de madeira suja de humores e de sangue. Um aquecedor a carvão aquecia a sala no inverno e facilitava a alguns cirurgiões mais conservadores o estancamento das hemorragias com ferro em brasa, como faziam seus ancestrais elizabetanos. A sanitização no teatro operatório era considerada ridícula, efeminada e afetada, o equivalente à limpeza do cepo do açougueiro ou do carrasco.

Joseph Lister (1827-1912), filho de um comerciante de vinhos de Londres, ainda estudante assistiu à primeira operação com anestesia realizada na Europa por Robert Liston, no Hospital Colégio da Universidade em 1846. Lister estudou a inflamação nas patas de sapos. Na sua opinião, a infeção fatal das incisões cirúrgicas não era causada pelos vagos miasmas, como pensava a crença popular, mas por algo sólido que flutuava no ar. Como Jenner, Lister antecipou Louis Pasteur que, em 1864, identificou aquelas partículas invisíveis como coisas vivas que acidificavam o vinho. Lister especulava que, se coisas sólidas faziam apodrecer os vinhos que seu pai vendia, deviam provocar a putrefação das incisões feitas por ele. Tentou, então, destruir essa massa de germes variados no local em que o bisturi do cirurgião facilitava sua entrada usando um desinfetante no campo operatório. Escolheu o ácido carbólico que, sabia, tinha funcionado nos esgotos de Carlisle. Lister era professor de cirurgia na Enfermaria Real de Glasgow, construída sobre um cemitério repleto de vítimas da epidemia de cólera. Ele resolveu experimentar sua idéia em 1865, aplicando panos embebidos em ácido carbólico na perna esquerda num menino em Glasgow, com fratura exposta da tíbia. Também adaptou vaporizadores usados para perfume, manejados por um estudante, que durante todo o tempo vaporizava a mesa de jantar da casa, coberta por uma toalha com borlas como preparada para o chá da tarde, onde se processava a operação. Lister aperfeiçoou os vaporizadores de perfume, criando seu “burro mecânico”, um tripé de madeira com um vidro de ácido carbólico vaporizado manualmente por meio de uma alavanca (o qual pode ser visto no corredor do Colégio Real dos Cirurgiões). Como não podia deixar de acontecer, logo passou a ser movido a vapor, como as locomotivas e os navios. O desconforto provocado na equipe pela nuvem constante de fenol no rosto, dia após dia, pode ser compreendido pelo jardineiro que resolve vaporizar suas árvores frutíferas num dia de vento forte. Em 1887, Lister abandonou o burro mecânico e voltou à gaze impregnada com ácido carbólico. Em 1871, operou a axila real: a rainha Vitória estava com um abcesso de 15 centímetros de largura na axila esquerda, e pior do que a dor era a indignidade de tal coisa na pessoa real. Na atmosfera impressionante da operação, feita com anestesia local, infelizmente a rainha recebeu uma baforada do vaporizador no rosto. _“Eu sou apenas o homem que maneja os foles”, protestou, arrasado, o assistente alvo da ira real. Lister se gabou delicadamente, depois da morte da rainha: _“Acredito que eu fui a única pessoa que jamais praticou no seu corpo divino a arte da cirurgia.” Para os amigos, ele disse: _“Cavalheiros, eu fui o único homem que enfiou uma faca na rainha!” No seu septuagésimo aniversário, Lister conheceu Pasteur, apresentado pelo presidente Carnot, na Sorbonne. _“Não existe no mundo todo um indivíduo a quem a ciência deva tanto quanto ao senhor”, disse Lister elegantemente para Pasteur. Eles se beijaram e todos gritaram Vive! Nesse rasgar de seda acadêmico, ele era lorde há três meses, o primeiro da medicina. As idéias de Lister não abrangeram todos os problemas da sua profissão. Na década de 1880, um médico com título de nobreza, no King’s College Hospital e que, apesar de ser o cirurgião menos confuso de Londres admitiu relutantemente a existência das bactérias, mas zombou da idéia de que podiam transmitir doenças através das nossas mãos., desafiador, enfiou um dedo na incisão feita por Lister que, violentamente, o empurrou para longe da mesa.

Robert Lawson Tait (1845-99), ginecologista na próspera cidade de Birmingham, malgré negar ferozmente que as bactérias fossem responsáveis pelo “pus louvável” que pingava livremente das incisões cirúrgicas. Mas fazia questão de lavar seu teatro operatório com água e sabão com o zelo de uma dona de casa, e todos seus casos de ovariotomias sobreviveram. Eugêne Koerbelé (1828-‘1915), na Alsácia, flambava os instrumentos para suas ovariotomias, e Emst von Bergmann (1836-1907), em Berlim, esterilizava tudo com vapor. A idéia de limpeza surgiu logo depois do começo da aceitação da divindade do cirurgião.

O método anti-séptico de Lister, que consistia em matar os germes na sala de operação, foi substituído, no fim da sua vida, pela assepsia, que usava autoclaves e água fervente para evitar que eles entrassem. Somente 15 anos depois da operação do menino de Glasgow, William Steward Halstead (1852 – 1922), no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, começou a praticar a cirurgia asséptica em lugar da anti-séptica.